Tenho algumas bandeiras de luta. Porque acho que temos que ter, nos diferencia, nos significa. Uma delas é o meio ambiente. Poucos, muito poucos da área da cultura também defendem essa ideologia. No meio por onde trabalho, é difícil alguém diferenciar uma Araucária de um Eucalipto, uma capivara de uma lontra, ou querer entender o que é o Aquífero Guarani. Ok. Mas o meu discurso e prática não significa "apenas"(como se fosse pouco) brigar por bichos, plantas, águas. Tem uma galera que ainda não consegue fazer uma associação imediata, se sentir "meio", quando tratamos do nosso ambiente. Eu brigo por esse monte pra brigar forte por nós, nossa espécie. E nossa qualidade de viver enquanto humanos.
Toda essa introdução é pra chegar nesse ponto - Estaleiro OSX, Biguaçu, SC, sul do Brasil. Eike Batista, após vários empreendimentos de "sucesso" pelo Brasil, quer instalar um estaleiro em uma área com mais de 1,6 milhão de metros quadrados. O empreendimento utilizará tecnologias de última geração para a construção de navios-sonda, plataformas fixas, jaquetas e navios tipo FPSO. Os materiais têm o objetivo de suprir a demanda da indústria petrolífera. O local onde pretende-se erguer o estaleiro fica no entorno de áreas de preservação ambiental, e em município onde a maioria da população vive do turismo e maricultura.
Bom, uso meu espaço no blog pra explicar minha posição CONTRA a vinda do estaleiro. Os motivos de agressão às áreas preservadas ambientalmente são claros. E é claro também que um empresário do porte de Eike virá com várias contra-partidas ambientais, como dizem que já fez - recursos para instalação de um Jardim Botânico em Florianópolis e verba para preservação dos golfinhos, ameaçados também pelo estaleiro - bem próximo à chamada "baía dos golfinhos", em Governador Celso Ramos. Além disso vai destilar nomes difíceis pra explicar que todo o material usado não será tóxico, tão pouco cancerígeno..talvez até convença a todos que os produtos até fazem bem pra saúde. Ironias a parte, o dano ambiental está claro que é grave, mas é claro também que tudo isso é previsível. O que poucos falam e eu que sou "viajada" reafirmo e tento chamar atenção é para algo que ninguém fala - o processo de favelização de uma região belíssima. Os políticos catarinenses que defendem o estaleiro como fonte de renda pro povo local deveria conhecer empreendimentos semelhantes a esse - existem vários pelo Brasil. Não apenas em São João da Barra, RJ, ou outros de Eike. Mas deveriam conhecer regiões como Angra dos Reis - Verolme - e ainda Campos, Macaé... no estado do Rio. É triste. Porque em Biguaçu não há mão-de-obra suficiente ou preparada pra tocar tal empreendimento. Logo, mesmo na construção, na pedra fundamental do estaleiro, ordas de trabalhadores virão de todo o Brasil. O que vai acontecer com o entorno? Essas pessoas encontrarão moradia? Bolsões de miséria, favelas crescerão. Junto a elas, desigualdade, marginalidade, saneamento básico inexistente e precário. Histórias como essa já as vi, fui testemunha ocular. Quebra-se toda uma economia que vem se consolidando, de geração em geração. A relação com o mar, com a terra. E pra se retomar esses bens imateriais não há recursos milionários no mundo. Se perde de vez.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Para ouvir o silêncio
Eu tinha 8 anos quando vi minha mãe chegando na escola. Era uma escola particular, pequena, de bairro, de subúrbio. Tinha um pátio generoso na entrada, com mangueiras, goiabeiras, jabuticabeiras. Um chão de terra batida. Minha mãe nunca ia à escola. Quando a vi, pensei logo que poderia ser algum problema. Comigo, claro.
Aos 8 anos já não era uma aluna exemplar. Naqueles idos finais da década de 70, tínhamos ditado todo o dia, nos obrigavam a decorar tudo e aprendíamos que “Pedro Álvares” descobrira o Brasil. Na Páscoa, pintavam nossa cara de coelhinho. E tinha a tal da “disciplina”. A escola tinha como marketing o “controle dos alunos”. E, pra direção da escola, eu era “meio” descontrolada.
Minha mãe foi chamada porque achavam que eu tinha dificuldades em entender os exercícios, problemas de aprendizagem, sem falar na minha letra, que era horrível.
Quando mamãe saiu da reunião eu a esperava na porta da diretoria. Disse que ia ao banheiro e corri até lá, contrariando mais uma vez as regras da escola. Minha mãe cruzou o olhar com o meu e senti imediatamente uma dor latejante e aguda. Indescritível. A mesma sensação que vim sentir bem mais tarde, quando já uma jovem, descobri pelos olhos da primeira paixão que eu não era única no coração dele.
Ao chegar em casa, ao invés de bronca, meu pai me chamou num canto, pediu que eu fechasse os olhos e me apresentou uma caixinha. Falou pra eu colocar a mão dentro. Não podia apertar. Segui as instruções e era algo vivo, delicado, que apertou meus dedos ansiosos pelo toque de reconhecimento. “Abre os olhos!” Era um pintinho. O mais lindo pintinho que eu já tinha visto. Eu sempre quis ter um animal de estimação, mas, como morávamos num apartamento de 2 quartos e 60 metros quadrados (eu dividia o meu quarto com meus 2 irmãos), não tinha argumento que convencesse meus pais. Ainda mais porque mudávamos muito, não podíamos fazer barulho, meu pai sumia vez por outra e minha mãe sempre dizia que em pouco tempo iríamos pra outro país. O que me assustava e ao mesmo tempo instigava.
Cuidei do pintinho. Com delicadeza mas também com um máximo de liberdade dentro das limitações do mínimo onde vivíamos. Quando eu tinha certeza que ninguém ia aparecer no corredor, eu o soltava ali. Era um corredor enorme, várias portas, muitos apartamentos por andar. Batizei o pinto de José. Diziam que era uma galinha, mas eu estava certa. José cresceu e virou um galinho! E dos bons! Tomava cerveja com meu pai, comia pipoca com a gente, e dormia no varão da cortina do box do banheiro. Os desavisados, especialmente os amigos assustados de meu pai, tomavam susto quando entravam no banheiro. Era só abaixar as calças que José cantava.
E José cresceu mais. Passou a cantar todas as madrugadas no banheiro. Minha mãe não o suportava. Reclamava do cheiro, da cantoria, da sujeira. Meu irmãos nem ligavam. Meu pai já não estava mais por lá. Era só eu quem defendia José.
Um dia cheguei da escola e o porteiro sorriu pra mim diferente. Em casa descobri que José se fora. Mamãe o doou pro porteiro, que o levou contente pra sua casinha num morro perto do nosso bairro. Chorei quieta, porque nunca gostei de mostrar que eu também tenho esse meu lado incontrolado.
Dias se passaram. Eu continuava triste. Minha mãe se chegou. Disse que José seria mais feliz no morro, junto a outros tantos galos, cantarolando pelas madrugadas, já como parte de uma paisagem, sem barulho, sem reclamação, sem banheiro, sem edifício e todos os seus vizinhos chatos. Eu disse “não era barulho, eu gostava de ouvir a música dele”. Foi quando minha mãe disse que eu o poderia escutar. Era só abrir os ouvidos, prestar atenção e ouvir. O morro era logo ali. E mesmo longe, onde quer que eu fosse,haveria um José pra cantar por perto.
E a partir daí tudo mudou na minha vida. Passei a ouvir no silêncio das madrugadas o cantarolar de José, e por todas as casas que eu vivi, cidades distantes daqui que morei, havia sempre uma música rasgando o silêncio pra mim.
Aos 8 anos já não era uma aluna exemplar. Naqueles idos finais da década de 70, tínhamos ditado todo o dia, nos obrigavam a decorar tudo e aprendíamos que “Pedro Álvares” descobrira o Brasil. Na Páscoa, pintavam nossa cara de coelhinho. E tinha a tal da “disciplina”. A escola tinha como marketing o “controle dos alunos”. E, pra direção da escola, eu era “meio” descontrolada.
Minha mãe foi chamada porque achavam que eu tinha dificuldades em entender os exercícios, problemas de aprendizagem, sem falar na minha letra, que era horrível.
Quando mamãe saiu da reunião eu a esperava na porta da diretoria. Disse que ia ao banheiro e corri até lá, contrariando mais uma vez as regras da escola. Minha mãe cruzou o olhar com o meu e senti imediatamente uma dor latejante e aguda. Indescritível. A mesma sensação que vim sentir bem mais tarde, quando já uma jovem, descobri pelos olhos da primeira paixão que eu não era única no coração dele.
Ao chegar em casa, ao invés de bronca, meu pai me chamou num canto, pediu que eu fechasse os olhos e me apresentou uma caixinha. Falou pra eu colocar a mão dentro. Não podia apertar. Segui as instruções e era algo vivo, delicado, que apertou meus dedos ansiosos pelo toque de reconhecimento. “Abre os olhos!” Era um pintinho. O mais lindo pintinho que eu já tinha visto. Eu sempre quis ter um animal de estimação, mas, como morávamos num apartamento de 2 quartos e 60 metros quadrados (eu dividia o meu quarto com meus 2 irmãos), não tinha argumento que convencesse meus pais. Ainda mais porque mudávamos muito, não podíamos fazer barulho, meu pai sumia vez por outra e minha mãe sempre dizia que em pouco tempo iríamos pra outro país. O que me assustava e ao mesmo tempo instigava.
Cuidei do pintinho. Com delicadeza mas também com um máximo de liberdade dentro das limitações do mínimo onde vivíamos. Quando eu tinha certeza que ninguém ia aparecer no corredor, eu o soltava ali. Era um corredor enorme, várias portas, muitos apartamentos por andar. Batizei o pinto de José. Diziam que era uma galinha, mas eu estava certa. José cresceu e virou um galinho! E dos bons! Tomava cerveja com meu pai, comia pipoca com a gente, e dormia no varão da cortina do box do banheiro. Os desavisados, especialmente os amigos assustados de meu pai, tomavam susto quando entravam no banheiro. Era só abaixar as calças que José cantava.
E José cresceu mais. Passou a cantar todas as madrugadas no banheiro. Minha mãe não o suportava. Reclamava do cheiro, da cantoria, da sujeira. Meu irmãos nem ligavam. Meu pai já não estava mais por lá. Era só eu quem defendia José.
Um dia cheguei da escola e o porteiro sorriu pra mim diferente. Em casa descobri que José se fora. Mamãe o doou pro porteiro, que o levou contente pra sua casinha num morro perto do nosso bairro. Chorei quieta, porque nunca gostei de mostrar que eu também tenho esse meu lado incontrolado.
Dias se passaram. Eu continuava triste. Minha mãe se chegou. Disse que José seria mais feliz no morro, junto a outros tantos galos, cantarolando pelas madrugadas, já como parte de uma paisagem, sem barulho, sem reclamação, sem banheiro, sem edifício e todos os seus vizinhos chatos. Eu disse “não era barulho, eu gostava de ouvir a música dele”. Foi quando minha mãe disse que eu o poderia escutar. Era só abrir os ouvidos, prestar atenção e ouvir. O morro era logo ali. E mesmo longe, onde quer que eu fosse,haveria um José pra cantar por perto.
E a partir daí tudo mudou na minha vida. Passei a ouvir no silêncio das madrugadas o cantarolar de José, e por todas as casas que eu vivi, cidades distantes daqui que morei, havia sempre uma música rasgando o silêncio pra mim.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Mulheres da Terra

Ainda é possível acessar os dois episódios de Mulheres da Terra, documentário filmado no oeste de Santa Catarina, com mulheres agricultoras do Movimento de Mulheres Camponesas. Entre outros objetivos, o Movimento trabalha pelo resgate das sementes crioulas.
http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/ResultadoBusca.aspx?uf=2&channel=46&tipo=tag&texto=mulheres_da_terra
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
2010, um novo ano
Em poucas horas um ano novo começaria. "Co-me-ça-ria"...Claudia gostava das possibilidades. Gostava de desenhar seu futuro, imaginar que, de uma hora pra outra, podia mudar o rumo de muita coisa. De outras nem tanto.
Por isso, no último dia do ano resolveu que largaria o emprego de garçonete no café. Estava ali há 1 ano, o chefe gostava dela, os colegas eram médio-simpáticos..ela os chamava assim porque, naquela cidade onde vivia, não era comum esbarrar com gente absolutamente simpática, 100% legal ou minimamente que demonstrasse o sentimento de felicidade. Lhe irritava o jeito velado de opinar. Não comentavam sobre todos os assuntos, tinham medo. Talvez de dizer algo chocante, algo que provocasse polêmica, ou que Claudia discordasse.
E foi assim que Claudia largou o emprego.
Também entregou a casa. Vivia em uma casa de madeira, dessas que um dia foi típica na região, mas que gradativamente foi substituída por mini-prédios de alvenaria grosseira. O bairro foi se descarecterizando, perdendo qualquer identidade. E Claudia também. Gostava do cheiro de maresia , gostava de acordar a noite com os cães do vizinho latindo, da sinfonia matinal dos galos, das brigas de casal da casa em frente, da gata no cio berrando como uma criança em seu telhado. Gostava de coisas que ninguém gostava. Era atraída por aquilo que seus ditos "amigos" consideravam insuportável.
E foi assim que Claudia se livrou do aluguel e da casinha verde e branca, de madeira.
O que faltava para o novo ano?
Claudia pensou.
Ivan era um amigo mais que amigo. Passavam dias de folga juntos. Bebiam vinho, chimarrão, sovavam a massa do pão. Liam livros juntos, cada um uma página, deitados nús na cama, em voz alta. A companhia dele fazia bem a Claudia.
Mas incomodava a Ivan o gosto de Claudia pelo cheiro de marezia, pelos latidos, miados, galos, brigas alheias, e o desgosto de Claudia por alguns de seus amigos.
Claudia dormia vendo cinema iraniano, não entendia bergman, não via revolução no cinema novo. Nunca foi ao Forum Social Mundial, pois era pessimista - pra Claudia, um mundo melhor não era possível.
E foi assim que Claudia pediu a Ivan que não a procurasse mais. Não chorou. E ele também - sequer a olhou nos olhos. Perguntou se tinha alguma outra pessoa. Claudia não entendeu.
Claudia foi até a rodoviária e lá resolveu seu destino. Entrou no ônibus e seguiu. Passou a virada do ano em uma parada de estrada, tomando um café-com-leite açucarado e morno. 2010, agora, começava.
Por isso, no último dia do ano resolveu que largaria o emprego de garçonete no café. Estava ali há 1 ano, o chefe gostava dela, os colegas eram médio-simpáticos..ela os chamava assim porque, naquela cidade onde vivia, não era comum esbarrar com gente absolutamente simpática, 100% legal ou minimamente que demonstrasse o sentimento de felicidade. Lhe irritava o jeito velado de opinar. Não comentavam sobre todos os assuntos, tinham medo. Talvez de dizer algo chocante, algo que provocasse polêmica, ou que Claudia discordasse.
E foi assim que Claudia largou o emprego.
Também entregou a casa. Vivia em uma casa de madeira, dessas que um dia foi típica na região, mas que gradativamente foi substituída por mini-prédios de alvenaria grosseira. O bairro foi se descarecterizando, perdendo qualquer identidade. E Claudia também. Gostava do cheiro de maresia , gostava de acordar a noite com os cães do vizinho latindo, da sinfonia matinal dos galos, das brigas de casal da casa em frente, da gata no cio berrando como uma criança em seu telhado. Gostava de coisas que ninguém gostava. Era atraída por aquilo que seus ditos "amigos" consideravam insuportável.
E foi assim que Claudia se livrou do aluguel e da casinha verde e branca, de madeira.
O que faltava para o novo ano?
Claudia pensou.
Ivan era um amigo mais que amigo. Passavam dias de folga juntos. Bebiam vinho, chimarrão, sovavam a massa do pão. Liam livros juntos, cada um uma página, deitados nús na cama, em voz alta. A companhia dele fazia bem a Claudia.
Mas incomodava a Ivan o gosto de Claudia pelo cheiro de marezia, pelos latidos, miados, galos, brigas alheias, e o desgosto de Claudia por alguns de seus amigos.
Claudia dormia vendo cinema iraniano, não entendia bergman, não via revolução no cinema novo. Nunca foi ao Forum Social Mundial, pois era pessimista - pra Claudia, um mundo melhor não era possível.
E foi assim que Claudia pediu a Ivan que não a procurasse mais. Não chorou. E ele também - sequer a olhou nos olhos. Perguntou se tinha alguma outra pessoa. Claudia não entendeu.
Claudia foi até a rodoviária e lá resolveu seu destino. Entrou no ônibus e seguiu. Passou a virada do ano em uma parada de estrada, tomando um café-com-leite açucarado e morno. 2010, agora, começava.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
baixo ventre
tinha 23 anos mas parecia menos. conhecia eduardo fazia quase 1 ano. foram ficando, ficando. ao contrário dos outros namorados, com edu acontecia algo novo e misterioso. inexplicável. o tempo a ajudava a gostar mais. a intimidade crescente tornava a relação, a cada dia, mais excitante. sem perceber, moravam juntos. sem perceber, mudaram o eixo da relação. sem perceberam, passaram a se chamar diferente - ela, a mulher, ele, o marido.
os anos foram passando, sem que o casal contasse. não contaram as crises de grana, nem tão pouco as crises de amor. os filhos vieram em três. escadinha. eles se dividiam na educação, nos cuidados, no tempo. distribuíam o amor de forma quase igual, entre os três. mas também sem se dar conta, não trocaram esse amor mais entre eles.
mais alguns anos e estava ela, se sentindo só. um vazio grande, um aperto inesperado. achava que aquele brilho, aquele frio no ventre e aquela súbita boca seca seriam sensações não mais vividas.
numa manhã, acordou novamente só.
não se conformou.
hoje ela vaga por aí e parece que o brilho voltou. a boca seca às vezes. falta só o ventre. mas o frio vai chegar na nova estação.
os anos foram passando, sem que o casal contasse. não contaram as crises de grana, nem tão pouco as crises de amor. os filhos vieram em três. escadinha. eles se dividiam na educação, nos cuidados, no tempo. distribuíam o amor de forma quase igual, entre os três. mas também sem se dar conta, não trocaram esse amor mais entre eles.
mais alguns anos e estava ela, se sentindo só. um vazio grande, um aperto inesperado. achava que aquele brilho, aquele frio no ventre e aquela súbita boca seca seriam sensações não mais vividas.
numa manhã, acordou novamente só.
não se conformou.
hoje ela vaga por aí e parece que o brilho voltou. a boca seca às vezes. falta só o ventre. mas o frio vai chegar na nova estação.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
o calor da carne
Tudo parecia sob controle. Era divertido. Discutir, questionar, beber, tragar. De espírito livre, relacionava-se. Era prazeroso. No calor da praia, a água quente daquele mar ajudava a aquecer as idéias, enquanto se esforçava para esfriar a pele mergulhando na cerveja gelada, na pinga no gelo. O tempo já não sentia mais. Queria congelar aqueles momentos, esquecer que os anos passam e que levam junto a única qualidade que se orgulhava em ter: o calor em sua carne.
Mas sem se dar conta, não era mais a mesma. Contentava-se em saltar sobre a cama de molas ou vagar sozinha pelos becos, buscando sabe lá o que.
E pensava: quão perigosa pode ser a vida!
saudade.
Mas sem se dar conta, não era mais a mesma. Contentava-se em saltar sobre a cama de molas ou vagar sozinha pelos becos, buscando sabe lá o que.
E pensava: quão perigosa pode ser a vida!
saudade.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
somente só
Se achava sozinha. Pela primeira vez, sozinha. Sozinha tomava o café, aindo cedo da manhã. Sozinha dirigia quilômetros. Sozinha mergulhava em suas escritas. Tão sozinha era, tão sozinha estava, que passou a se acostumar com o "sozinha".
Se sentia feliz. Sozinha, se completava.
Foram longos e férteis momentos que o estar sozinha lhe proporcionaram.
Ao deixar de estar sozinho, não mais se encontrou. A cada dia foi desejando mais aquele passado de isolamente. Até que teve coragem.
Em sua solidão ela vive rodeada.
Se sentia feliz. Sozinha, se completava.
Foram longos e férteis momentos que o estar sozinha lhe proporcionaram.
Ao deixar de estar sozinho, não mais se encontrou. A cada dia foi desejando mais aquele passado de isolamente. Até que teve coragem.
Em sua solidão ela vive rodeada.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
armando carreirão - memória em movimento

Uma homenagem ao agitador cultural de Santa Catarina - Armando Carreirão - é o objetivo do documentário que vai ao ar sábado próximo, dia 22 de agosto, antes do jornal do almoço, no programa SC em Cena, da RBS TV.
Ele e os integrantes do Grupo SUl, queriam "sacudir" uma Florianópolis adormecida...A entrevista de Carreirão, falecido em 2007, concedida a sua neta, Luiza, é o ponto de partida para a criação desse trabalho que pra mim foi instigante.
Que venham mais Carreirões!
terça-feira, 11 de agosto de 2009
nem freira, nem puta...
Mentir, fazia bem. Tinha que conhecê-la muito bem pra sacar quando não era verdade. De súbito, desviava os olhos e franzia levemente a testa. Só. Também já tinha cometido alguns delitos, bem poucos. Mas era muito jovem. Carregava toda a culpa: das mentiras, dos delitos. Culpa maior: falta de interesse pela verdade. A mentira era tão mais interessante! Histórias mirabolantes, amantes tórridos, mergulhos em emoções intensas.
Mas também tinha coisas positivas. Quando jurava um amor, era pra sempre. Quando cativava alguém, alguém a tinha cativado.
E foi assim que seguiu a vida. Não era freira, mas também nada tinha de puta.
Mas também tinha coisas positivas. Quando jurava um amor, era pra sempre. Quando cativava alguém, alguém a tinha cativado.
E foi assim que seguiu a vida. Não era freira, mas também nada tinha de puta.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
meninos e meninas
Tinha tudo de menina - cabelo comprido, saia até o joelho, brincadeira de boneca. Eram 4: Mariana, Carolina, Sabrina e Jéssica.Ficavam na estante de brinquedos. Ela cuidava, quase todo o dia. Mas carregava com ela um sentimento estranho. Não tinha proximidade ou uma mínima sequer vontade de se aproximar das meninas. Já os meninos a encantavam. O jeito de não ter culpa por não tomar banho, de voltar pra classe suado, de arrotar depois de beber coca-cola, de fazer xixi onde bem entender.Da maneira natural e desmedida de verbalizar as "palavras feias e sujas". Delícia. Eram vários seus amigos. No futebol, gostava do ataque, mas tava sempre no gol. Tudo bem. Cedia.
Com o tempo, os meninos começaram a olhá-la de outra maneira. Com o tempo, as menina também. Inventaram-lhe apelidos. Ela não gostou. Chorava escondido. E ainda gostava deles, dos meninos, como amigos. E como meninos. Passado mais tempo ainda, se afastou. Se adaptou.
Hoje ela só tem um amigo.
Com o tempo, os meninos começaram a olhá-la de outra maneira. Com o tempo, as menina também. Inventaram-lhe apelidos. Ela não gostou. Chorava escondido. E ainda gostava deles, dos meninos, como amigos. E como meninos. Passado mais tempo ainda, se afastou. Se adaptou.
Hoje ela só tem um amigo.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
casca de ferida
O trem passou e Ariela se assustou. No banco vazio, de súbito, uma guria. Uns 7, 8 anos. Usava uniforme escolar. Ariela olhou pra ela. Ela olhou Ariela, sem encarar, baixando as vistas. As feridas do joelho chamaram a atenção de Ariela. Também os cotovelos esfolados, o arranhado no nariz. Ariela lembrou de seu tempo, de quando também estava sempre em frangalhos. Sentiu uma enxurrada de emoção e até os joelhos arderam, relembrando a celebração de cada casquinha de ferida.
O trem chegou.
A guria se foi, olhando de rabo de olho pra Ariela, que levantou um pouco a saia, tentando mostrar as cicatrizes persistentes nos joelhos.
Nunca mais se viram.
Ano passado, Ariela se foi.
A encontraram no banco da estação. Adormecia. Pra sempre.
O trem chegou.
A guria se foi, olhando de rabo de olho pra Ariela, que levantou um pouco a saia, tentando mostrar as cicatrizes persistentes nos joelhos.
Nunca mais se viram.
Ano passado, Ariela se foi.
A encontraram no banco da estação. Adormecia. Pra sempre.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
em cascatas
Ela olhou cada pedacinho da casa. Viu o painel de fotos na parede, os livros, motivo que a enche de orgulho: leu cada um daqueles ali. Não são apenas livros de prateleira. Livros largados na estante. São histórias que foram manuseadas, vividas pela sua imaginação pulsante.
Jogou a mochila sobre a cama, abriu o armário. "só uma mochila..." pensou - "sou minimalista até nos mínimos momentos". Guardou suas roupas. Coisa bem básica. Assim como ela.
Mais difícil que as coisas foi o cachorro. Olhava com olhos de perda. Foi aí que liberou o choro, em cascatas, de uma vez só. Ali, abraçada ao cachorro, no jardim com a grama por cortar, os arbustos por podar, numa manhã fria de inverna que ela disse adeus.
Não fechou o portão.
Mas se foi.
As pegadas, mesmo passados alguns dias, ainda estão lá.
Jogou a mochila sobre a cama, abriu o armário. "só uma mochila..." pensou - "sou minimalista até nos mínimos momentos". Guardou suas roupas. Coisa bem básica. Assim como ela.
Mais difícil que as coisas foi o cachorro. Olhava com olhos de perda. Foi aí que liberou o choro, em cascatas, de uma vez só. Ali, abraçada ao cachorro, no jardim com a grama por cortar, os arbustos por podar, numa manhã fria de inverna que ela disse adeus.
Não fechou o portão.
Mas se foi.
As pegadas, mesmo passados alguns dias, ainda estão lá.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
deitar no céu, olhar a grama

a gente cresce e perde um monte de coisa. justifica q não faz mais porque tá grande.
bom, eu não cresci muito. meu irmão me chamava de "anão de jardim". mas eu continuo brigando pela janela do avião, mesmo viajando muito, estar no alto não perdeu o encanto. me pego com pensamentos distantes, idéias absurdas. e me toca ouvir alguns me chamando de "infantil", "imatura". adoro! tenho que dar muito duro pra fingir que sou gente grande. dentro dessas referências q se tem do comportamento adulto.
prefiro deitar no céu pra olhar a grama. pena é a falta de tempo. isso é a minha maior carga, o meu maior peso que me faz, diariamente, lembrar que cresci. sou adulta.
a grama tá ficando amarelada.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
o filho do padeiro e a revolução
Em uma época na qual a arte se identifica e se organiza em tendências de temporada, será cada vez mais raro encontrar um artista cuja tendência radical na direção da justiça é obra de uma vida inteira. Augusto Boal construiu uma carreira pontuada muitas vezes por lances decisivos, não apenas pessoalmente, mas para a história do teatro brasileiro. Por meio de sua obra, o andar de baixo finalmente vem à luz e personagens como operários, cangaceiros e jogadores de times de várzea ganham o palco. O artigo é de Kil Abreu.
Kil Abreu (*)
Filho de um padeiro português que chegou ao Rio de Janeiro por se recusar a servir como soldado em uma guerra com a qual não concordava e de uma certa senhora que abandonara o primeiro noivo praticamente no altar para casar, por decisão e gosto, com um “aventureiro”, Augusto Boal aprendeu desde logo que o mundo pode ser mudado, bastando para isso decisão e coragem. Toda a sua invenção no teatro parece se basear nesta fé sobre o efeito da ação do homem no mundo, que não é apenas um lance retórico, como no teatro burguês, e deve ser encontrada nos motivos da vida ordinária.
Foi assim que ele construiu uma carreira pontuada muitas vezes por lances decisivos, não apenas pessoalmente, mas para a história do teatro brasileiro. Convidado ao então promissor Teatro de Arena, em 1956, empresta ao grupo os conhecimentos aprendidos, de encenação e dramaturgia, em uma recente temporada nos Estados Unidos. Principal ideólogo nos caminhos de uma cena preocupada em com as contradições da sociedade, é Boal quem intui que um teatro novo, com assuntos ainda não levados ao palco, pede também uma cena nova, com dramaturgia própria e um repertório técnico e artístico que dê conta de suportar a representação da realidade em chave crítica. Introduz o método de Stanislávski, que havia estudado no Actor's Studio, com vistas ao naturalismo que seria de grande valia para a primeira fase de renovação da cena que o Arena promoveria. O andar de baixo finalmente vem à luz e personagens como operários, cangaceiros e jogadores de times de várzea ganham o palco. Era a hora da representação dos temas nacionais, quando dirigiu, entre outros, Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Viana Filho (1959), espetáculo que dá seguimento a Eles não usam Black-tie, peça de Guarnieri (1958) dirigida por José Renato.
Ainda em 1960, de mãos dadas com os ensinamentos vindos de Brecht e o seu teatro épico, Boal escreve Revolução na América do Sul , uma mistura de teatro de agitação, tradições populares e revista musical. O espetáculo tem direção de José Renato e afirma com grande inventividade as marcas que pautariam toda a sua produção posterior: de um lado, o espírito criativo iconoclasta, experimental e, de outro, a certeza de que a experiência estética não é mero formalismo, é meio para a discussão urgente de algum aspecto da vida em sociedade.
O período que vai de 64 a 71, contabilizada a grande sede de justiça social provocada pelo golpe, é o período da resistência que inclui ações em várias frentes: alinhado ao CPC da UNE, já na ilegalidade, Boal dirige, no Rio, o Show Opinião, com Zé Ketti, João do Vale e Nara Leão. Em São Paulo cria, com Guarnieri e Edu Lobo, o musical Arena Conta Zumbi, cuja estrutura modelar seria aproveitada em outras montagens (Arena conta Bahia, Arena conta Tiradentes, Arena conta Bolívar). O propósito é evidente: fazer, através de personagens históricos ligados às lutas populares, o cotejamento com a realidade atual do país, apontando a necessidade de mobilização e de mudança. Mas não é só. Para que o efeito crítico seja efetivo os espetáculos trazem, entre outras inovações, o “sistema coringa”, uma técnica através da qual todos os atores interpretam todos os personagens e a fábula é conduzida por um narrador, que à maneira brechtiana faz a mediação crítica e chama a platéia a acompanhar as cenas à luz da razão.
É ao fim deste duro período, quando finalmente será exilado depois de passar por tortura e de ver suas montagens censuradas, que está o nascedouro da experiência que consagraria Boal como um dos artistas brasileiros mais importantes do mundo. É quando surgem os princípios que vão orientar as técnicas que mais adiante serão aplicadas ao seu Teatro do Oprimido. É criado o Núcleo Independente, oriundo do Arena, que teria ação importante na periferia de São Paulo nos anos 70. O primeiro espetáculo chama-se Teatro Jornal 1a. edição e inspira-se no trabalho de um grupo de agit-prop americano dos anos 30, o Living Newspaper. O procedimento fundamental está próximo do que mais tarde seria o Teatro Fórum: os atores lêem as notícias do dia e criam situações cênicas para debater pontos de vista e lançar novos olhares sobre o noticiado.
Expulso do seu país, Boal prossegue com seu trabalho no exterior, primeiro na Argentina, onde desenvolve a estrutura teórica dos procedimentos do teatro do oprimido. É quando passa a sistematizar e a praticar uma revolução verdadeira. Simples como o são as coisas necessárias e urgentes, o Teatro do Oprimido tem como palco qualquer lugar onde um grupo de cidadãos possa se reunir e tem como fiinalidade dar voz, através da representação simbólica do mundo, aos que em geral permanecem calados. Com uma técnica engenhosa, que leva aquele que seria o espectador do teatro burguês ao lugar de atuante no curso dos acontecimentos, é uma forma teatral que desmistifica a coisa estética para ver a beleza no exercício de autonomia do sujeito, quando este é chamado a intervir no andamento da ação e a dar sentido político à sua própria existência. Recentemente o Teatro Legislativo, gênero derivado do TO e surgido durante o mandato de Boal como vereador no Rio de Janeiro, foi responsável pela criação de treze Leis municipais, todas nascidas da discussão comunitária, em encontros nos quais a população apresentou, através do teatro, as suas demandas.
Nomeado pela Unesco Embaixador Mundial do Teatro em março deste ano, Boal deixa seus livros traduzidos em vinte idiomas e centros de teatro do oprimido espalhados por mais de setenta países.
Nesta semana de homenagens póstumas não será demais lembrar uma fala, na apresentação da sua autobiografia, em que ele dizia que a idéia de se autobiografar é algo quase imoral, pois que o importante é a obra, não o homem. Mas o fato é que seu gênio artístico fará falta, sim, e tende a parecer cada vez mais uma anomalia, um idealismo ingênuo – como, aliás, está tratado já subliminarmente, nas falas de despedida, pela grande mídia e por vários dos seus companheiros de jornada, hoje rendidos ao mercado do entretenimento. Em uma época na qual a arte se identifica e se organiza em tendências de temporada, será cada vez mais raro encontrar um artista cuja tendência radical na direção da justiça é obra de uma vida inteira.
(*) Kil Abreu é jornalista, crítico e pesquisador do teatro. É curador do Festival Recife do Teatro nacional e coordena o Núcleo de Estudos do teatro contemporâneo da Escola Livre de Santo André.
Kil Abreu (*)
Filho de um padeiro português que chegou ao Rio de Janeiro por se recusar a servir como soldado em uma guerra com a qual não concordava e de uma certa senhora que abandonara o primeiro noivo praticamente no altar para casar, por decisão e gosto, com um “aventureiro”, Augusto Boal aprendeu desde logo que o mundo pode ser mudado, bastando para isso decisão e coragem. Toda a sua invenção no teatro parece se basear nesta fé sobre o efeito da ação do homem no mundo, que não é apenas um lance retórico, como no teatro burguês, e deve ser encontrada nos motivos da vida ordinária.
Foi assim que ele construiu uma carreira pontuada muitas vezes por lances decisivos, não apenas pessoalmente, mas para a história do teatro brasileiro. Convidado ao então promissor Teatro de Arena, em 1956, empresta ao grupo os conhecimentos aprendidos, de encenação e dramaturgia, em uma recente temporada nos Estados Unidos. Principal ideólogo nos caminhos de uma cena preocupada em com as contradições da sociedade, é Boal quem intui que um teatro novo, com assuntos ainda não levados ao palco, pede também uma cena nova, com dramaturgia própria e um repertório técnico e artístico que dê conta de suportar a representação da realidade em chave crítica. Introduz o método de Stanislávski, que havia estudado no Actor's Studio, com vistas ao naturalismo que seria de grande valia para a primeira fase de renovação da cena que o Arena promoveria. O andar de baixo finalmente vem à luz e personagens como operários, cangaceiros e jogadores de times de várzea ganham o palco. Era a hora da representação dos temas nacionais, quando dirigiu, entre outros, Chapetuba Futebol Clube, de Oduvaldo Viana Filho (1959), espetáculo que dá seguimento a Eles não usam Black-tie, peça de Guarnieri (1958) dirigida por José Renato.
Ainda em 1960, de mãos dadas com os ensinamentos vindos de Brecht e o seu teatro épico, Boal escreve Revolução na América do Sul , uma mistura de teatro de agitação, tradições populares e revista musical. O espetáculo tem direção de José Renato e afirma com grande inventividade as marcas que pautariam toda a sua produção posterior: de um lado, o espírito criativo iconoclasta, experimental e, de outro, a certeza de que a experiência estética não é mero formalismo, é meio para a discussão urgente de algum aspecto da vida em sociedade.
O período que vai de 64 a 71, contabilizada a grande sede de justiça social provocada pelo golpe, é o período da resistência que inclui ações em várias frentes: alinhado ao CPC da UNE, já na ilegalidade, Boal dirige, no Rio, o Show Opinião, com Zé Ketti, João do Vale e Nara Leão. Em São Paulo cria, com Guarnieri e Edu Lobo, o musical Arena Conta Zumbi, cuja estrutura modelar seria aproveitada em outras montagens (Arena conta Bahia, Arena conta Tiradentes, Arena conta Bolívar). O propósito é evidente: fazer, através de personagens históricos ligados às lutas populares, o cotejamento com a realidade atual do país, apontando a necessidade de mobilização e de mudança. Mas não é só. Para que o efeito crítico seja efetivo os espetáculos trazem, entre outras inovações, o “sistema coringa”, uma técnica através da qual todos os atores interpretam todos os personagens e a fábula é conduzida por um narrador, que à maneira brechtiana faz a mediação crítica e chama a platéia a acompanhar as cenas à luz da razão.
É ao fim deste duro período, quando finalmente será exilado depois de passar por tortura e de ver suas montagens censuradas, que está o nascedouro da experiência que consagraria Boal como um dos artistas brasileiros mais importantes do mundo. É quando surgem os princípios que vão orientar as técnicas que mais adiante serão aplicadas ao seu Teatro do Oprimido. É criado o Núcleo Independente, oriundo do Arena, que teria ação importante na periferia de São Paulo nos anos 70. O primeiro espetáculo chama-se Teatro Jornal 1a. edição e inspira-se no trabalho de um grupo de agit-prop americano dos anos 30, o Living Newspaper. O procedimento fundamental está próximo do que mais tarde seria o Teatro Fórum: os atores lêem as notícias do dia e criam situações cênicas para debater pontos de vista e lançar novos olhares sobre o noticiado.
Expulso do seu país, Boal prossegue com seu trabalho no exterior, primeiro na Argentina, onde desenvolve a estrutura teórica dos procedimentos do teatro do oprimido. É quando passa a sistematizar e a praticar uma revolução verdadeira. Simples como o são as coisas necessárias e urgentes, o Teatro do Oprimido tem como palco qualquer lugar onde um grupo de cidadãos possa se reunir e tem como fiinalidade dar voz, através da representação simbólica do mundo, aos que em geral permanecem calados. Com uma técnica engenhosa, que leva aquele que seria o espectador do teatro burguês ao lugar de atuante no curso dos acontecimentos, é uma forma teatral que desmistifica a coisa estética para ver a beleza no exercício de autonomia do sujeito, quando este é chamado a intervir no andamento da ação e a dar sentido político à sua própria existência. Recentemente o Teatro Legislativo, gênero derivado do TO e surgido durante o mandato de Boal como vereador no Rio de Janeiro, foi responsável pela criação de treze Leis municipais, todas nascidas da discussão comunitária, em encontros nos quais a população apresentou, através do teatro, as suas demandas.
Nomeado pela Unesco Embaixador Mundial do Teatro em março deste ano, Boal deixa seus livros traduzidos em vinte idiomas e centros de teatro do oprimido espalhados por mais de setenta países.
Nesta semana de homenagens póstumas não será demais lembrar uma fala, na apresentação da sua autobiografia, em que ele dizia que a idéia de se autobiografar é algo quase imoral, pois que o importante é a obra, não o homem. Mas o fato é que seu gênio artístico fará falta, sim, e tende a parecer cada vez mais uma anomalia, um idealismo ingênuo – como, aliás, está tratado já subliminarmente, nas falas de despedida, pela grande mídia e por vários dos seus companheiros de jornada, hoje rendidos ao mercado do entretenimento. Em uma época na qual a arte se identifica e se organiza em tendências de temporada, será cada vez mais raro encontrar um artista cuja tendência radical na direção da justiça é obra de uma vida inteira.
(*) Kil Abreu é jornalista, crítico e pesquisador do teatro. É curador do Festival Recife do Teatro nacional e coordena o Núcleo de Estudos do teatro contemporâneo da Escola Livre de Santo André.
terça-feira, 7 de julho de 2009
ele me inspira
"ninguém enriquece com a literatura se ao mesmo tempo não for capaz de chupar um pêssego aproveitando a mão livre para levá-lo a boca, se não fizer amor entre duas páginas, se não se debruçar na janela para saber que durante o último mês cinqüenta crianças morreram queimadas na região se Saigon, e que em Biafra os nigerianos ajudados pelo nobilíssimo Reino Unido degolaram todos os pacientes de um hospital; será preciso repetir, professor Papalino Zeta, que a literatura não é um terreno privilegiado no sentido escapista que tanto convém e adorna? Biafra e o erotismo, a chuva de napalm e os Jogos Venezianos de Lutoslawski: a poesia continua sendo a melhor possibilidade humana de realizar um encontro que ninguém descreveu melhor que Lautréamont e que pode fazer do homem o laboratório central de onde algum dia sairá o definitivamente humano, a menos que antes disso todos nós tenhamos ido para a casa do caralho."
NOTÍCIAS DO MÊS DE MAIO , Julio Cortázar
NOTÍCIAS DO MÊS DE MAIO , Julio Cortázar
sábado, 4 de julho de 2009
paulo leminsky
"Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar de remar também." - hoje eu tô assim, meio ele...
terça-feira, 30 de junho de 2009
marina silva
Sou fã de Marina Silva, que inclusive tive o prazer de conhecer pessoalmente. Forte e frágil, educada e enérgica, ela reune toda a ética que eu admiro. Um amigo, que já trabalhou com Marina, me enviou esse texto, que copio abaixo. Concordo em termos. Até porque Marina é uma excelente senadora. O que fariam dela se fosse presidente?
pra reflexão...
Sou membro não-praticante desse movimento - por Rogerio Fischer
Sempre caio em presepadas de amigos. A última, já contei aqui, foi em São Paulo, coisa de um mês, quando assisti Palmeiras x Coritiba na torcida do Coritiba. Minha lista de manezices é ilimitada. Algumas, inocentes. Outras, brabas. E não faço muito esforço para ser diferente. Vou aceitando as coisas que acho que devo aceitar e pronto. Se me danar no final, foda-se. Prefiro me danar fazendo as coisas de peito aberto, coração limpo, de boa, do que ficar me policiando para não parecer otário. Otário é quem acha que me faz de otário. Enfim, tem coisas que você aceita por achar que deve fazer e pronto. Dias atrás recebi dum amigão e-mail falando sobre o Movimento Marina Silva Presidente. Para mim, que já me estrepei por convicções político-ideológicas, aquele e-mail do Montezuma Cruz passou batido como passa um informativo sobre promoções do shopping, mas, sei lá, deu um estalo e cliquei no dito cujo. Até porque o que vem do Monte, figurativamente falando, não precisa de antivírus. O texto informava sobre o movimento e convidava para fazer parte. Preenchi lá um troço rápido e passei, em poucos segundos, a integrar o Movimento Marina Silva Presidente. Depois parei para pensar. Gostei do que fiz. A iniciativa me fez lembrar da figura da Marina. Taí uma pessoa porreta. Do bem. Pedra 90. Nunca li uma vírgula falando mal dela. Tudo bem, com o PT, no começo dos anos 80, também era assim, seu mané. Mas é diferente. Marina é petista histórica e, apesar deste governo, do qual fez parte, parece que nem petista é. Manteve, após alguns anos no Ministério do Meio Ambiente, uma reputação ilibada. Se teve erros, foi por excesso de zelo, de franqueza e sinceridade. Enfrentou o turbilhão progressista com altivez, embora estejamos falando de um progresso à la Sarney, à la Jader, à la Blairo, à la Cassol, mais pautado na motosserra que na sustentabilidade. Enfim, tem horas que parece inevitável que tenhamos que queimar cartuchos para termos energia, por exemplo, mas é de emocionar como era difícil, com Marina no governo, aprovar uma obra que mexesse com o habitat natural. Enfim, cliquei naquele e-mail do Monte como quem vai para a missa, sem compromisso algum. Sou tão atuante no movimento como sou na igreja, porém, mesmo esse apoio tímido, solitário, descompromissado, me fez bem. Me fez bem participar de algo, depois de tanta frustração com que achávamos que viraria o país quando o PT chegasse ao poder. É bom saber que esse país ainda tem reservas morais como essa moça. Nunca fez badalação, nunca leu-se nada sobre um acordo espúrio, um aliança nada a ver, um conchavo dela, nada. Vou confessar uma coisa: quando estou sem nada para ver na TV, um jogo, um filmão, algo assim, se eu zapeio a TV Senado, eu paro pra ver. Audiências em comissão, inclusive. E ver essa moça atuando é garantia de bons momentos. Ela não esmorece nunca. À menor pisada na bola de uma vossa excelência qualquer, ela coloca o sujeito no seu devido lugar. Se você tiver alguma dúvida sobre alguma questão crucial que esteja em pauta, pergunte a Marina – ela lhe dará um parecer que, no mínimo, te colocará por dentro da coisa. Sempre tem uma opinião balizada, calibrada, enérgica. Lancinante e ao mesmo tempo meiga. Ela consegue destruir o raciocínio alheio com uma calma, uma ternura inigualáveis. É o Che de saias. E sem disparar um estilingue sequer. Do seu rosto só se depreende seriedade. Contar uma piada com Marina Silva na roda soa até esquisito. Falo tudo isso a distância, lógico, posto que não a conheço pessoalmente. Mas diga aí, de sopetão, a quem você daria a chave do cofre? A quem você confiaria seu imposto de renda? A quem você faria uma confidência? Quem, se esse poder tivesse, você alçaria à presidência da República? Dilma? Aecinho? Ciro? Serra? José Ato Secreto Sarney? Você vai pensar um ano e vai ficar eternamente na dúvida. No Lula 80%? Nem que a vaca tussa, ô meu. Nem que chegue a 99% de aprovação. Não, não vou satanizar o presidente, ele faz o que pode com o que tem. Mas Marina traz uma confiança que eu acreditava perdida. Gosto daquele prefeito do Rio também. Marina, contudo, é mulher formada, pronta, acabada. Forjada na vida e na política. Daria a ela a chave do Planalto e da Granja sem pestanejar. E sabe por que eu não culpo o Lula? Porque não adianta. Mesmo que tivéssemos uma Marina presidente, é preciso conviver com a escória legislativa, judiciária. Todo presidente tem seu esquema. O de Lula, depois que o mensalão veio à tona, foi se segurar em Delfim, Sarney, Renan, Collor, Quércia, Jefferson e o escambau de bico para manter-se no poder, ele e a turma, que parecia pé de amendoim: quando é arrancado, vem aquele monte de apêndices junto. O esquema de Lula é nomear Ricardo Barros vice-líder, é permitir que deputado aproveite “o fortalecimento da mídia regional” para emplacar notinhas em jornais. É fazer tudo igual como sempre foi, para ver se faz uma coisinha aqui, outra ali, que justifique o título de Partido dos Trabalhadores. É elogiar desmatador, é absolver grilheiro, é afagar usineiro, é abraçar banqueiro. Com Marina ou qualquer outro, esse esquema, essa coisa maior, essa coisa macro, que os sociólogos, acho, chamam de status quo, não mudaria. Mas sei lá. Com Marina, eu dormiria mais tranqüilo. E isso, pô, isso não é pouco.
pra reflexão...
Sou membro não-praticante desse movimento - por Rogerio Fischer
Sempre caio em presepadas de amigos. A última, já contei aqui, foi em São Paulo, coisa de um mês, quando assisti Palmeiras x Coritiba na torcida do Coritiba. Minha lista de manezices é ilimitada. Algumas, inocentes. Outras, brabas. E não faço muito esforço para ser diferente. Vou aceitando as coisas que acho que devo aceitar e pronto. Se me danar no final, foda-se. Prefiro me danar fazendo as coisas de peito aberto, coração limpo, de boa, do que ficar me policiando para não parecer otário. Otário é quem acha que me faz de otário. Enfim, tem coisas que você aceita por achar que deve fazer e pronto. Dias atrás recebi dum amigão e-mail falando sobre o Movimento Marina Silva Presidente. Para mim, que já me estrepei por convicções político-ideológicas, aquele e-mail do Montezuma Cruz passou batido como passa um informativo sobre promoções do shopping, mas, sei lá, deu um estalo e cliquei no dito cujo. Até porque o que vem do Monte, figurativamente falando, não precisa de antivírus. O texto informava sobre o movimento e convidava para fazer parte. Preenchi lá um troço rápido e passei, em poucos segundos, a integrar o Movimento Marina Silva Presidente. Depois parei para pensar. Gostei do que fiz. A iniciativa me fez lembrar da figura da Marina. Taí uma pessoa porreta. Do bem. Pedra 90. Nunca li uma vírgula falando mal dela. Tudo bem, com o PT, no começo dos anos 80, também era assim, seu mané. Mas é diferente. Marina é petista histórica e, apesar deste governo, do qual fez parte, parece que nem petista é. Manteve, após alguns anos no Ministério do Meio Ambiente, uma reputação ilibada. Se teve erros, foi por excesso de zelo, de franqueza e sinceridade. Enfrentou o turbilhão progressista com altivez, embora estejamos falando de um progresso à la Sarney, à la Jader, à la Blairo, à la Cassol, mais pautado na motosserra que na sustentabilidade. Enfim, tem horas que parece inevitável que tenhamos que queimar cartuchos para termos energia, por exemplo, mas é de emocionar como era difícil, com Marina no governo, aprovar uma obra que mexesse com o habitat natural. Enfim, cliquei naquele e-mail do Monte como quem vai para a missa, sem compromisso algum. Sou tão atuante no movimento como sou na igreja, porém, mesmo esse apoio tímido, solitário, descompromissado, me fez bem. Me fez bem participar de algo, depois de tanta frustração com que achávamos que viraria o país quando o PT chegasse ao poder. É bom saber que esse país ainda tem reservas morais como essa moça. Nunca fez badalação, nunca leu-se nada sobre um acordo espúrio, um aliança nada a ver, um conchavo dela, nada. Vou confessar uma coisa: quando estou sem nada para ver na TV, um jogo, um filmão, algo assim, se eu zapeio a TV Senado, eu paro pra ver. Audiências em comissão, inclusive. E ver essa moça atuando é garantia de bons momentos. Ela não esmorece nunca. À menor pisada na bola de uma vossa excelência qualquer, ela coloca o sujeito no seu devido lugar. Se você tiver alguma dúvida sobre alguma questão crucial que esteja em pauta, pergunte a Marina – ela lhe dará um parecer que, no mínimo, te colocará por dentro da coisa. Sempre tem uma opinião balizada, calibrada, enérgica. Lancinante e ao mesmo tempo meiga. Ela consegue destruir o raciocínio alheio com uma calma, uma ternura inigualáveis. É o Che de saias. E sem disparar um estilingue sequer. Do seu rosto só se depreende seriedade. Contar uma piada com Marina Silva na roda soa até esquisito. Falo tudo isso a distância, lógico, posto que não a conheço pessoalmente. Mas diga aí, de sopetão, a quem você daria a chave do cofre? A quem você confiaria seu imposto de renda? A quem você faria uma confidência? Quem, se esse poder tivesse, você alçaria à presidência da República? Dilma? Aecinho? Ciro? Serra? José Ato Secreto Sarney? Você vai pensar um ano e vai ficar eternamente na dúvida. No Lula 80%? Nem que a vaca tussa, ô meu. Nem que chegue a 99% de aprovação. Não, não vou satanizar o presidente, ele faz o que pode com o que tem. Mas Marina traz uma confiança que eu acreditava perdida. Gosto daquele prefeito do Rio também. Marina, contudo, é mulher formada, pronta, acabada. Forjada na vida e na política. Daria a ela a chave do Planalto e da Granja sem pestanejar. E sabe por que eu não culpo o Lula? Porque não adianta. Mesmo que tivéssemos uma Marina presidente, é preciso conviver com a escória legislativa, judiciária. Todo presidente tem seu esquema. O de Lula, depois que o mensalão veio à tona, foi se segurar em Delfim, Sarney, Renan, Collor, Quércia, Jefferson e o escambau de bico para manter-se no poder, ele e a turma, que parecia pé de amendoim: quando é arrancado, vem aquele monte de apêndices junto. O esquema de Lula é nomear Ricardo Barros vice-líder, é permitir que deputado aproveite “o fortalecimento da mídia regional” para emplacar notinhas em jornais. É fazer tudo igual como sempre foi, para ver se faz uma coisinha aqui, outra ali, que justifique o título de Partido dos Trabalhadores. É elogiar desmatador, é absolver grilheiro, é afagar usineiro, é abraçar banqueiro. Com Marina ou qualquer outro, esse esquema, essa coisa maior, essa coisa macro, que os sociólogos, acho, chamam de status quo, não mudaria. Mas sei lá. Com Marina, eu dormiria mais tranqüilo. E isso, pô, isso não é pouco.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
e o michael se foi!
ontem duas notícias - michael jackson e farrah fawcett morreram. putz, tudo ao mesmo tempo. eu que dançava em frente a tv assistindo os jackson 5, imitava os passinhos de break, me emocionei quando ouvi billy jean a primeira vez. a música batia bem. pra nascer um outro michael jackson vão aí mais 500 anos...não conheço ninguém que diga que "eu não gosto da música dele." ou "é ruim".
e a farrah? naqueles tempos, os seriados eram só enlatados americanos e como nós meninas amávamos AS PANTERAS!!!
é. o tempo passa. a roda gira. e a gente assiste.
e a farrah? naqueles tempos, os seriados eram só enlatados americanos e como nós meninas amávamos AS PANTERAS!!!
é. o tempo passa. a roda gira. e a gente assiste.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
vende-se!
quem nasce no rio de janeiro tem essa característica comum - não troca a cidade por nada, é enraizado, orgulhoso da terra de origem. eu me senti sempre uma estranha no ninho. pra mim, quem tem raiz é árvore. gosto sim da cidade onde nasci muito mais pelo espírito de sua gente do que pela própria cidade em si. no rio qualquer pessoa, de qualquer parte do mundo, tem aquela sensação estranha de pertencimento, de sentir-se a vontade. e isso não é pela "maravilhosa". até porque, maravilhosa é a zona sul da cidade. o restante, a periferia, o subúrbio, é como qualquer zona periférica de uma cidade grande. mas o que realmente faz a diferença é esse espírito livre, de receber as pessoas, de falar de sentimentos, de abrir sua casa a todos. esse espírito eu me orgulho de carregar pra onde quer que eu vá.
morei em alguns outros lugares. conheci muito do brasil e um pedacinho do mundo.mas o lugar que eu escolhi viver e criar minhas meninas é florianópolis, santa catarina, sul do brasil. confesso que a região sul nunca esteve no topo das minhas preferências. me sentia a vontade no norte, no nordeste. pelo clima, pela cultura. mas floripa foi amor a primeira vista. o que mais me chamou atenção, dessa vez, não foram as pessoas. foi a beleza da cidade como um todo - não de um espaço específico, mas de todo o estado, que fui conhecendo, e me apaixonando. especialmente das belezas naturais. a mata atlântica, as florestas de araucária, o mar cristalino, as baleias, a existência de bichos da nossa fauna q já se foram. sumiram de vários estados. me sinto acolhida porque me sinto parte desse verde. me sinto a vontade no mato.
o q me choca é perceber como essa natureza vem sendo destratada, desconsiderada.o ser humano insiste em se colocar a frente, mais forte. ele tem a justificativa, nos tempos atuais, próxima ao processo de colonização da amazônia, quando era chamada de "inferno verde" até mesmo nas cartilhas escolares. é assim que grande parte da sociedade catarinense justifica o desmatamento, o desrespeito ao uso da terra em áreas próximas a rios, nascentes e ainda, a distribuição de autorizações para construção de pchs (pequenas centrais hidrelétricas) em todo o estado. as corredeiras, quedas dágua naturais vão se extinguir no estado. e poucos se indignam. ou por ignorância, ou por medo, ou por - pasmem! - preguiça. em nome de um progresso idiotizante, aliante e, porque não dizer, fascista. as catástrofes estão aqui e, mesmo assim, o ser humano insiste em sua maneira arrogante de ver a terra, de ver a água. é triste. muito triste. estamos retrocedendo. e santa catarina é hoje o estado que mais desmata, atrás de minas gerais. um estado que poderia ser explorado por um turismo consciente, diferenciado, como fizeram outras regiões do brasil - bonito, fernando de noronha - e gerar receita limpa, como em campos do jordão ou gramado. mas não! o governo estadual, com o consentimento de grande parte da sociedade, e da FATMA, está leiloando santa catarina. VENDE-SE! e por muito pouco...esse é o lema da vez. Foi assim com a exploração de Fosfato em Anitápolis, com as pchs nas mãos da Counter Global, e com a Votorantin em Vidal Ramos.
Será que a ficha não vai cair? Quando toco nesse assunto, entre roda de amigos, gente com boa formação, intelectuais, vem sempre uma reação de indiferença, de espanto. Falar de meio ambiente, de consciência ambiental e ecologia, não é cool.
Infelizmente, é preciso pisar no calo pra sentir. A sociedade urbana é egocêntrica. Todas essas questões, além da "caretice", estão bem distantes de atingi-los. Mas não é nada nada bem assim.
Chegará o dia.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
no topo
de dentro do aviãozinho ,sobrevoando o mato grosso, sobre o rio xingu, a sensação de ser tão pequena me produziu não um frio na barriga mas uma condimentação cerebral..as idéias saltaram, pipocaram e o projeto "o espelho de ana" apareceu do nada. agora é correr atrás e transportá-lo do papel pras imagens e sons. e uma sensação gostosa de tirar os pés do chão e ver o mundo verde possível lá em baixo...lógico, comprimido pelas plantações, cinturões de soja transgênica.
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